O ÓDIO PELO ÓDIO – GRAÇA CAMPOS*

O ÓDIO PELO ÓDIO – GRAÇA CAMPOS*

Em o “Domínio Decrescente do MPLA no Sistema Partidário Em Angola, tese de Doutoramento de Carlos Barnabé Upindi Pacatolo, defendida em Fevereiro de 2024, o autor atribuiu o declínio eleitoral do partido governante angolano a vários factores, mas elenca, essencialmente “a abstenção, a mudança sociodemográfica dos eleitores e a capacidade de mobilização da oposição”; “a alteração das estratégias partidárias e a crescente disponibilidade de segmentos do eleitorado para participar e votar na oposição”.

Na página 69 da dissertação, já publicada em livro em Abril de 2024, o autor refere, também, que “a tendência decrescente do domínio eleitoral do MPLA pode estar associada à provável mudança no perfil sociodemográfico do eleitorado angolano, que vai sendo cada vez mais rejuvenescido por eleitores que têm pouca memória da guerra, mais escolarizados, maioritariamente urbanos, mais exigentes com os valores democráticos e que adotam preferencialmente participação politica não convencional. A sua mobilização para a participação politica convencional (partidária e eleitoral pode afigurar-se um grande um grande desafio para a dominância do MPLA (…)”.

Não se sabe se há uma relação de causa e efeito, mas o facto é que em 27 de Agosto, pouco menos de 6 meses da publicação do seu livro, Carlos Pacatolo, até então um dos mais brilhantes intervenientes participantes do debate público, nomeadamente através do programa Conversas Essenciais, foi nomeado administrador do Lobito, um cargo geralmente simbólico e que, no essencial serve apenas para cumprir ordens dos governadores provinciais e organizar actos de massas do MPLA.

Com essa nomeação, Pacatolo não apenas foi afastado do debate público como está muito limitado na sua dimensão de académico.
No dia 30 de Setembro passado, o académico David Boio defendeu, no Instituto de Ciências Sociais de Lisboa, a tese de Doutoramento em Política Comparada. Obteve do jurado não só a mais levda nota (20 valores), como mereceu um louvor unânime do corpo de jurado.

Intitulada “O Processo do Declínio da Legitimidade Política do Poder Autoritário do MPLA em Angola”, o documento ainda não chegou em Angola em forma de livro e nem está ainda dainda disponível em qualquer plataforma digital. Não obstante, mercenários a soldo da Presidência da República não se inibiram de desqualificar o documento bem como o corpo de jurado.

Como bem escreve o moçambicano Elísio Macambo, Angola é, seguramente, o único país do mundo em que o crítico não precisa de ler para expor os seus maus fígados.

Há muitas maneiras de criticar uma tese de doutoramento

Podemos questionar os conceitos, a metodologia, a qualidade dos dados, a consistência dos argumentos ou a validade das conclusões. Um irmão do Atlântico, Anselmo Agostinho, descobriu outra possibilidade que consiste em não ler a tese. Num artigo publicado a 4 de Outubro de 2026, intitulado “Estranhos doutoramentos”, questiona a avaliação académica duma tese de outro angolano, David Boio (…) recentemente defendida na Universidade de Lisboa com a classificação máxima. O autor tem o cuidado de esclarecer que não leu a tese e que, portanto, não sabe o que ela contém. Esta circunstância, porém, não o impede de levantar suspeitas sobre a qualidade da avaliação. É uma abordagem curiosa ao conhecimento. Para saber se uma pesquisa é digna de confiança, não é dispensável conhecer o que foi pesquisado”, escreveu Macamo.

Embora reconheça que “não se leu a tese, pelo que não se sabe o que lá vem”, o mercenário a soldo da Presidência não se coibiu de questionar a idoneidade e capacidade do júri.

Sobre a angolana Paula Roque, por exemplo, Anselmo Agostinho escreve que ela “possui trabalho de investigação sobre governação, segurança e conflito em Angola, mas é sobretudo conhecida pelas suas análises altamente críticas do MPLA e do regime político angolano. Ao longo dos anos, construiu uma imagem pública fortemente associada à denúncia do MPLA. A sua intervenção pública aproxima-se frequentemente do ativismo político anti-MPLA”. Ora, Paula Roque não integrou o júri e nem sequer assistiu à cerimónia…

Sobre os outros membros do júri, o homem do regime escreve: “Os restantes membros do júri possuem mérito académico inquestionável nas respetivas áreas, mas não são geralmente reconhecidos como especialistas de referência sobre a política angolana contemporânea”.

Feita essa avaliação, Anselmo Agostinho, um individuo cujo rosto poucos angolanos conhecem, conclui que a composição do júri “é suficiente para suscitar dúvidas legítimas sobre o equilíbrio intelectual do painel e sobre a inexistência de contraditório académico numa matéria tão controvertida e politicamente sensível”.

Mas, antes de concluir a deselegante e provavelmente invejosa narrativa, Anselmo Agostinho coloca-se a si mesmo uma angustiosa pergunta: “Até que ponto o que ocorreu não foi uma tomada de posição política por uma instituição de ensino superior em Portugal relativamente a Angola, e não uma aferição científica objectiva?“.

Nos tempos em que o MPLA se identificava como um partido com visão estratégica, as teses de Doutoramento de Carlos Pacatolo e David Boio teriam sido, indiscutivelmente, adotadas como “documentos de trabalho”: Afinal, em ambas, os autores prestam assessoria gratuita ao MPLA ao lhe fornecerem subsídios sobre as razões sobre o seu inegável declínio. Mas, esse é um MPLA que tanto Agostinho quanto o trânsfuga do Kuma nunca conheceram. Ambos são contratações recentes.

*Jornalista

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