Mais um Grito Ancestral (SDP) – Benja Satula*
“Deixem-me falar! Por que é que estão a boicotar a minha fala? Por que estão todos enraivecidos comigo? Não sou o único a causar tormento ao povo angolano. Alguns de vós estiveram lá e não conseguiram arrumar a casa; agora querem atormentar-me. Porquê?
Por: Benja Satula*
Não sou santo. Estou consciente das atrocidades que cometi, estou consciente das minhas faltas. Não fui o único que adormeceu na cegueira. O materialismo cegou-nos a todos. E, se tiver de pedir desculpas, seria ao camarada Jonas Savimbi, ao general Miala, ao general Dino, a Kopelipa e a tantos outros.
Quanto a JES, cuja alma não se aproxima, encontra-se num asilo de cura, por não se querer misturar com aqueles que vieram dos conflitos do pós-Independência.
Tudo o resto vibrou na mesma energia materialista que nos cegou e nos impediu de enxergar o verdadeiro problema — não apenas de Angola, mas de toda a África.
O caos está instalado. A minha visão amplificou-se. Não sei se é castigo ou se faz parte da punição pelos meus erros e falhas. Consigo ouvi-los a todos. Consigo ver e sentir as malícias dos camaradas promotores do caos em Angola. São visíveis os erros que têm sido cometidos ao longo do tempo.
Quero dormir, mas não consigo. Tentei suicidar-me para entorpecer a minha alma, mas nada funciona. Os gritos de socorro atormentam-me. Por isso, deixem-me falar. Que seja a última fala, mas deixem-me falar.
Sim, matei muitos na guerrilha, mas fez parte da luta. Também fiz com que muitos fossem mortos, mas era o momento; precisei de agir em função do momento. Criei corredores e caminhos para que muitos caíssem, mas as minhas acções foram sempre determinadas pela jogada do instante.
Procurei protecção nas energias densas, porque muitos dos meus camaradas também o faziam. Por isso, temo pela sorte dos meus filhos.
Os espíritos que nos alimentam, enquanto carnais, usam uma energia muito forte, fazendo-nos crer que somos imortais, que jamais abandonaremos o mundo carnal.
É sofrível estar aqui e observar o caos que deixámos, fruto da nossa ganância. Gemo de dor a cada manifestação desse caos, como se fosse uma melodia insuportável.
Matem-me, se alguém quiser ajustar contas, mas tirem-me deste sofrimento infernal. As dores do caos são insuportáveis. E, se consigo falar, é porque o canal da médium assim o permitiu.
Quero morrer. Matem-me, por favor. A ilusão que criei no plano carnal não me protege no plano espiritual.
Ao povo não sei o que dizer, pois o tormento que enxergo deve ser o seu castigo. A Luz partiu, mas continuo a enxergar o caos. Como é que isso é possível? Matem-me simplesmente.
A Arena Palaciana — onde todos querem chegar sem conhecer as armadilhas que lá os aguardam — fará de nós carrascos de uma fantasia temporária.
Intrigas percorrem quilómetros para nos manterem prisioneiros do nada: talvez de um cargo, talvez de uma visibilidade que nos mantém na ribalta. Talvez eu tenha sido louco e vós não o notastes. Por isso, caí na armadilha fantasiosa de lutar para me manter na ribalta palaciana.
São muitas as histórias por contar, verdades escondidas e medos que nos impedem de as dizer. Mas não posso dizê-las. A minha família não suportaria.
Viverei o tormento do carrasco exilado, de quem nem a morte se interessa. Já tentei suicidar-me, mas nem a morte quer saber de mim”.
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