Escolhido por Chávez e por Cuba: Líder venezuelano termina derrotado pelo poder bélico dos EUA

Escolhido por Chávez e por Cuba: Líder venezuelano termina derrotado pelo poder bélico dos EUA

Maduro capturado: O líder venezuelano, ex-sindicalista e militante de esquerda teve os seus governos marcados por repressão a opositores, denúncias de violações dos direitos humanos e crises econômicas.

Quando o ex-presidente venezuelano Hugo Chávez (1999-2012) adoeceu de um câncer terminal e teve que se afastar do poder, a escolha de seu sucessor provocou debates dentro e fora da Venezuela. Muitos apostaram num nome do mundo militar e, nesse caso, o mais cotado era Diosdado Cabello, que participou de tentativas de golpe de Estado ao lado de Chávez no início da década de 1990 e, desde então, ocupou lugares de destaque no círculo do líder bolivariano. Mas a opção de Chávez foi por um civil e nela pesaram dois elementos centrais: lealdade absoluta e entrega a um projeto de poder que nasceu nos quartéis e, após dois levantes fracassados, migrou para a política. Nicolás Maduro venceu a disputa pela sucessão não apenas pela escolha do ex-presidente, mas, também, do poder cubano, peça central da autoproclamada revolução bolivariana na Venezuela.

Desde a sua chegada ao Palácio Miraflores, em Janeiro de 1999, Chávez consultou permanentemente o poder da ilha, primeiro com Fidel Castro, seu grande mentor na política, e depois com os que o sucederam. Cuba sempre foi um apoio indispensável para Chávez que, já doente, preferiu tratar-se em Havana e não em hospitais de países da Europa ou de vizinhos como o Brasil. A confiança nos cubanos era total, e contar com essa confiança era essencial para ter poder dentro do chavismo. Maduro a conquistou, Cabello — que faz poucas visitas à ilha — não.

Chávez anunciou a sua decisão de entregar o comando do país a Maduro em 8 de Dezembro de 2012, com uma frase que passou para a História: “Minha opinião firme, plena como a lua cheia, irrevogável, absoluta, total é que em caso de que, como manda a Constituição, devam ser convocadas novas eleições presidenciais, vocês escolham Nicolás Maduro como presidente da República Bolivariana da Venezuela. Peço isso do fundo do coração”.

Maduro fora vice-presidente de Chávez e ministro das Relações Exteriores, na fase mais importante da sua participação no governo, quando o líder bolivariano ainda estava vivo. Ambos se conheceram nos anos em que Chávez esteve preso, após as duas tentativas fracassadas de golpe de Estado. Cília Flores, segunda esposa de Maduro, era uma das advogadas do já famoso tenente-coronel. Nas visitas à prisão, Maduro, na época um jovem sindicalista que trabalhara no metrô de Caracas e iniciaria a sua carreira política na esquerda venezuelana, ficou fascinado com as ideias de Chávez. Nascia o movimento bolivariano, que depois levou ao surgimento do Movimento Quinta República, o partido com o qual Chávez venceu as eleições de 1998, com 56,2% dos votos.

Maduro esteve desde o primeiro momento junto ao tenente-coronel, que, após fracassar com as armas e ser indultado pelo governo de Rafael Caldera, chegou ao poder através das urnas. Eram outros tempos, e a Venezuela ainda era uma democracia plena.

Com Chávez vivo, Maduro era uma figura sem brilho no governo chavista. Foi um chanceler que seguiu fielmente os desejos do seu presidente, entre eles a entrada da Venezuela no Mercosul — bloco do qual o país foi formalmente expulso em 2016, por violação da cláusula democrática. Como vice-presidente, era a sombra de Chávez.

O presidente Nicolás Maduro, da Venezuela, e sua esposa, Cilia Flores, durante uma marcha pró-governo em Caracas — Foto: Alejandro Cegarra / New York Times

Disciplina como virtude

Amigos de infância e ex-companheiros da vida política de Maduro afirmam que o presidente chegou aonde chegou porque “sempre fez o que lhe pediram, sem questionar”. As suas negociações dentro do chavismo foram, principalmente, com a ala militar. Com o passar dos anos, Maduro se tornou uma figura de confiança da cúpula militar, que admitia a sua capacidade de resistência a ofensivas externas. Ao longo dos anos, a Venezuela chegou a enfrentar mais de mil sanções internacionais, terminando com o seu próprio presidente a ser considerado o líder de um cartel de drogas, o Cartel de los Soles, por parte dos Estados Unidos de Donald Trump. Ao passar a integrar a lista de organizações terroristas identificadas pela Casa Branca, Maduro sofreu o seu golpe final.

Com um país isolado, asfixiado economicamente, cercado militarmente e sem a menor condição de se defender, o chavismo finalmente sucumbiu. O esperado ataque dos EUA ao território venezuelano encerrou anos de perseguição a um líder que, uma vez no poder, tornou-se um ditador. Em aliança com o chavismo duro e os militares, Maduro sufocou a oposição e expulsou do país milhões de venezuelanos.

Todos na Venezuela sabiam que um segundo governo de Trump significaria uma ameaça de vida ao chavismo. Resistir foi a palavra de ordem, em sintonia com o que faz Cuba há décadas. Mas o fim chegou. Os ataques letais a barcos de supostos traficantes na região — e posteriormente também no Pacífico — deram sequência ao avanço militar americano na região, algo inédito na América do Sul.

Maduro, que disputou pela primeira vez a Presidência da Venezuela em 2013, acabou por ser derrotado pelo poder bélico americano. Durante todo o tempo em que o líder venezuelano permaneceu no poder, o país viveu numa permanente montanha-russa, com ondas de protestos e repressão, que custaram a Maduro denúncias de violações dos direitos humanos por parte das Nações Unidas, uma investigação no Tribunal Penal Internacional (TPI) e mais de mil sanções por parte dos Estados Unidos e outros países. O chavismo argumenta que as sanções, defendidas por sectores da oposição — que também promoveram a intervenção estrangeira —, asfixiaram a Venezuela e impediram o presidente de governar. A realidade é que Maduro não conseguiu garantir nem estabilidade política, nem prosperidade económica, como esperava Chávez.

Henrique Capriles, em visita ao Brasil em busca de apoio internacional em 2016 — Foto: André Coelho / O Globo

Trajectória no chavismo

Nicolás Maduro Moros nasceu em 23 de Novembro de 1962, na cidade de Caracas, capital da Venezuela. É filho de Nicolás Maduro García e Teresa de Jesus Moros. Pertenceu a uma família de classe média da capital venezuelana, e a sua juventude foi marcada pela militância sindicalista e de esquerda. A amizade com Chávez foi o trampolim para a grande política, na qual nunca se destacou pela oratória ou outras habilidades. Maduro fazia o que lhe pediam, essa era a sua principal característica.

Em 1983, foi guarda-costas do candidato presidencial José Vicente Rangel, que depois se tornaria vice-presidente de Chávez e uma figura de proa dos anos de glória do chavismo. Anos depois, participou da Assembleia Constituinte que redigiu a Constituição Bolivariana de 1999. No ano seguinte, foi eleito para a Assembleia Nacional, o Parlamento venezuelano. Na sequência, foi porta-voz da Casa nos anos de 2005 e 2006, antes de se tornar ministro das Relações Exteriores entre 2006 e 2013.

Como chanceler, Maduro manteve uma relação muito próxima com os governos do PT no Brasil. Costumava fazer consultas ao então chanceler brasileiro Celso Amorim, sempre por indicação de Chávez. “Fale com Celso”, costumava dizer o ex-presidente da Venezuela, que tinha admiração por Lula e pelo embaixador brasileiro. O Brasil, naqueles anos, tinha um papel de enorme importância na Venezuela. Era uma influência forte, talvez a mais forte ao lado de Cuba.

Em 2019, o primeiro governo Trump reconheceu Juan Guaidó, então líder da oposição, como presidente da Venezuela — Foto: Meridith Kohut/New York Times

Primeiros mandatos

A primeira vitória de Maduro nas urnas, em Abril de 2013, um mês após a morte de Chávez, foi contestada pela oposição — a sua vantagem em relação ao político Henrique Capriles foi inferior a 2 pontos percentuais. Três dias após o resultado, o presidente da Suprema Corte venezuelana decidiu que uma recontagem manual dos votos seria inconstitucional. Até hoje, a oposição acusa Capriles de não ter “cobrado” essa recontagem. A decisão enterrou praticamente a carreira política do dirigente opositor, que já havia disputado a Presidência com Chávez em 2012.

Os governos de Maduro estiveram marcados por teorias de conspiração, perseguição feroz a opositores, denúncias de violações dos direitos humanos e deterioração da situação económica e social do país. No seu primeiro ano de governo, o sucessor de Chávez anunciou a expulsão de três diplomatas americanos da Venezuela, alegando que eles estiveram envolvidos num apagão generalizado ocorrido no início de Setembro. Foram épocas de ondas de manifestações (mais de 168 mortos em 2014 e 2017), repressão, concentração do poder presidencial e isolamento internacional. Com o afastamento do Brasil, já sem o PT no poder, países como Rússia, China, Irão e Turquia passaram a ser importantes aliados.

A segunda eleição, em Maio de 2018, também foi contestada e não contou com a participação de grande parte da oposição. À época, a reeleição de Maduro não foi reconhecida por mais de 60 países. Em 2019, os Estados Unidos impuseram um embargo ao petróleo da Venezuela.

Ameaças internas

Para permanecer no poder, Maduro endureceu. Conseguiu manter coeso o governista PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela) e as Forças Armadas, apesar de frequentes tentativas de rebelião dentro dos quartéis. Centenas de militares foram presos e alguns morreram na prisão. Nessa luta, um aliado central para Maduro foi o ministro da Defesa, general Vladimir Padrino López, no cargo há quase 10 anos.

O apoio militar a Maduro foi crucial quando, em Janeiro de 2019, Juan Guaidó, então líder da Assembleia Nacional controlada pela oposição, se autoproclamou presidente legítimo, alegando que a reeleição fora fraudulenta e havia no país um vazio de poder. As expectativas da oposição de que Guaidó tomaria o palácio presidencial foram rapidamente frustradas, com todas as principais instituições a permanecerem sob firme controlo do governo e dominadas por aliados do presidente.

Desconfiado de influências externas, Maduro criou um círculo íntimo de poder, formado por um grupo selecto de políticos de confiança. Entre esses aliados está Delcy Rodríguez, que já actuou como ministra de Comunicações e de Relações Exteriores e, mais recentemente, como vice-presidente; e o seu irmão, Jorge Rodríguez, que terminou como presidente da Assembleia Nacional e foi o enviado de Maduro para as principais negociações com os Estados Unidos.

Nova eleição contestada

Em 28 de Julho de 2024, em meio a mais uma eleição contestada pela oposição e por grande parte da comunidade internacional, Maduro, já com 61 anos, foi anunciado como vencedor de um pleito que se transformou num divisor de águas no país. Conforme a CNE, Maduro obteve 51,21% dos votos, enquanto o seu principal rival, o embaixador aposentado Edmundo González Urrutia — que tinha María Corina Machado como candidata a vice-presidente — recebeu 44,2%. A oposição nunca aceitou o resultado, e o país mergulhou numa onda de repressão brutal. Milhares de pessoas foram presas sem justificação, lideranças da oposição, entre elas o próprio González Urrutia, rumaram para o exílio, e a Venezuela não conseguiu contar com o apoio sequer dos vizinhos Brasil e Colômbia, antes seus aliados.

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Na cerimónia em que foi oficialmente proclamado como presidente eleito, Maduro acusou os opositores e a “extrema direita” no exterior de tentarem desestabilizar o país.

“Não é a primeira vez que enfrentamos o que enfrentamos hoje. Está a ser feita uma tentativa de impor um golpe de Estado na Venezuela, novamente. De natureza fascista e contrarrevolucionária”, disse Maduro, apontando que estariam em curso os “primeiros passos” para desestabilizar o país.

Disputa com os EUA

Desde o início da escalada de tensão com o segundo governo de Trump, Maduro respondeu às acusações de narcoterrorismo e disse estar disposto a resistir às “forças imperialistas dos EUA”, alegando que os ataques eram uma tentativa de provocar uma mudança de regime. O líder venezuelano liderou a campanha contra a ofensiva de Trump, ao lado das principais figuras do governo.

A propaganda do chavismo funcionou o mais rápido possível. Nos meses prévios ao ataque americano, Maduro anunciou exercícios militares e treinamentos armados para civis. Em Outubro, após Trump confirmar que havia autorizado a Agência Central de Inteligência (CIA) a conduzir acções secretas na Venezuela, citou os “golpes de Estado orquestrados pela CIA” na América Latina. Alguns dias mais tarde, afirmou que havia “desmantelado uma célula criminosa” patrocinada pela agência americana.

A tensão se elevava dia após dia. Os EUA subiram a recompensa pela captura de Maduro para US$ 50 milhões sob acusações de “narcoterrorismo”. Em paralelo, as investigações no Tribunal Penal Internacional (TPI) por supostos crimes de lesa-humanidade cometidos pelas forças de segurança chavista continuam. A acção sempre foi uma enorme dor de cabeça para Maduro e seus aliados, e um dos motivos que o chavismo tinha para não deixar o poder. O risco de as principais figuras do regime terminarem na prisão era motivo de tormento para todos.

Nos anos em que Maduro esteve no poder o chavismo, mas suas próprias palavras, se tornou um regime cívico, militar e policial. Amparado por esse regime, foram feitos negócios milionários, nasceu a chamada burguesia bolivariana, associada a parceiros do mundo que continuaram a apoiar a Venezuela. Russos, árabes, iranianos e turcos fizeram parte desses negócios, asseguram lideranças opositoras. Maduro construiu um império, enquanto milhões de venezuelanos continuaram a viver na pobreza. Os erros permanentes da oposição deram ainda mais vida ao chavismo, que acabou por cair pela intervenção de um poder estrangeiro.

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