Missiva ao aniversariante: O banquete no navio que afunda

Missiva ao aniversariante: O banquete no navio que afunda

Excelentíssimo Senhor Presidente João Lourenço,

Hoje, enquanto as mensagens protocolares inundam o seu gabinete, o país que se quer Nação oferece-lhe o presente que o protocolo omite: a verdade nua e crua.

Por: Edson Neto

O senhor celebra mais um ano de vida, mas o povo angolano conta os dias de uma sobrevivência que parece não ter fim.

A imagem que hoje percorre o país não mente. Vemos as instituições que deveriam ser os pilares da moralidade — o Supremo, a PGR, o Tribunal de Contas — ajoelhadas não perante a Lei, mas perante os sacos de dinheiro.

Enquanto Vossas Excelências desfrutam da “Paz do Senhor” em gabinetes climatizados e viaturas de 3,7 milhões de dólares, a Igreja Católica grita pelo povo que definha na fome e na prostituição por desespero.

Que tipo de “justiça” é esta, onde o ajuste directo serve para comprar o silêncio e o luxo da magistratura, enquanto as nossas crianças não têm um caderno para escrever o seu próprio nome?

O senhor prometeu ser o rosto da mudança, mas tornou-se o epicentro de decisões que nos colocaram “abaixo do limite da água”.

Sob o seu olhar, o Fundo Soberano — a poupança dos nossos netos — é asfixiado para alimentar o marketing de um regime que já só convence quem dele se banqueteia.

Sob o seu comando, o perjúrio institucional tornou-se aceitável: o PCA da AGT “esquece-se” de 90 mil milhões de Kwanzas e o sistema sorri, enquanto o Artigo 333.º amordaça quem tem a coragem de denunciar o óbvio.

Senhor Presidente, não se engane com o brilho das 36 viaturas novas. Esse brilho não ilumina o país; ele cega as elites.

O seu legado para 2027 está a ser forjado no contraste insuportável entre:

O seu trono de aniversário e a lama onde vive o cidadão comum.

A “Cultura das Comissões” e a falência ética das instituições.
A mentira dos números oficiais e a verdade da fome nas ruas.

Desejamos-lhe saúde, para que tenha tempo de ver Angola erguer-se, não por via das suas concessões, mas pela força de um povo que já não aceita ser governado por quem confunde o erário público com um “saco azul”.

Pelo fim da impunidade. Pelo País no lugar.

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